O Mundo Fala, Mas Ninguém Ouve
Vivemos a era da hiperconexão e, paradoxalmente, da maior solidão empática da história. Uma reflexão sobre o que perdemos quando trocamos a conversa pela notificação.
Eu sempre fui do tipo que faz DR.
Não tenho vergonha de admitir isso. Muito pelo contrário. Sempre achei que uma conversa difícil, aquela em que você senta e diz “preciso entender o que aconteceu”, vale muito mais do que uma semana de silêncio emburrado ou de mensagens monossilábicas que fingem que está tudo bem quando não está. Na minha cabeça, a DR sempre foi um ato de respeito. Respeito por mim, que preciso me explicar. Respeito pelo outro, que merece uma explicação. Respeito pelo que existe entre nós, seja amizade, amor, trabalho, o que for.
Tem gente que acha isso cansativo. Eu entendo. Há pessoas que encaram uma conversa direta como uma ameaça, como se transparência fosse sinônimo de confronto. Convivi com isso. Convivo até hoje. E aprendi que não dá para forçar alguém a se abrir se ele não quer. Mas aprendi também que meus relacionamentos mais bonitos, os que têm textura e duração, são exatamente aqueles em que a conversa nunca teve hora para acabar.
Empatia, pra mim, sempre foi isso. Não é concordar com o outro. É estar disposto a ouvi-lo até o ponto em que você entende de onde vem aquilo que ele diz, mesmo que você continue discordando.
E aí eu olho para o mundo hoje e fico com uma sensação estranha no estômago.
Nunca fomos tão conectados. Nunca tivemos tanto acesso ao outro, à história do outro, ao rosto do outro, às opiniões, às dores, às conquistas do outro. Em 2025, havia mais de 5,5 bilhões de pessoas usando internet no mundo. O celular que está no bolso de qualquer pessoa com renda minimamente estável tem mais poder de comunicação do que qualquer coisa que existiu na história da humanidade. Em teoria, nunca foi tão fácil se colocar no lugar de alguém diferente de você.
Em teoria.
Porque o que as pesquisas mostram é o oposto. Um estudo de meta-análise feito com universitários americanos revelou que os níveis de empatia caíram cerca de 40% entre 1979 e 2009. Quarenta por cento. Em trinta anos. Exatamente o período em que a internet nasceu, cresceu e se tornou a espinha dorsal da civilização. A geração mais conectada da história é, pelos dados disponíveis, uma das menos empáticas.
Isso não é coincidência. É uma ironia estrutural.
Para entender o que está acontecendo, é preciso olhar para como as plataformas foram construídas, porque elas não foram construídas para nos aproximar de verdade. Foram construídas para nos manter acordados.
Os algoritmos que governam o que você vê no Instagram, no TikTok, no X, no YouTube, não foram programados para te mostrar o que é verdadeiro ou o que te fará uma pessoa melhor. Foram programados para te mostrar o que vai te fazer ficar mais um minuto, mais cinco, mais uma hora. E o que faz isso, o que prende a atenção humana com mais eficiência, é a indignação. Um estudo publicado na Nature Human Behaviour mostrou que conteúdos moralmente carregados têm até 20% mais chances de serem compartilhados, especialmente quando provocam raiva ou medo.
Então o sistema aprende. Aprende que te mostrar o inimigo converte mais do que te mostrar o vizinho. Que a caricatura engaja mais do que a nuance. Que a certeza é mais rentável do que a dúvida. E vai te alimentando com isso, dia após dia, até que o outro, aquele que pensa diferente de você, deixe de ser uma pessoa com uma história e vire uma categoria. Um símbolo de tudo que está errado.
É impossível ter empatia por uma categoria. Empatia exige pessoa.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han tem uma expressão que não sai da minha cabeça desde que a li: ele fala em “terror da igualdade”. A ideia é que nos cercamos cada vez mais de pessoas que pensam como nós, consomem como nós, se indignam com as mesmas coisas que nós, e chamamos isso de comunidade. Mas é o oposto de comunidade. É uma câmara de eco com decoração afetiva.
Eli Pariser (co-fundador e presidente da Avaaz.org) chamou esse fenômeno de filter bubble, bolha de filtro, ainda nos anos 2010, quando a coisa estava engatinhando. Hoje está adulta e saudável. Os algoritmos de recomendação mapeiam seus cliques, suas pausas, o tempo que você passa olhando para cada imagem, e montam um mundo sob medida para você. Um mundo em que suas crenças são constantemente confirmadas e o dissenso aparece apenas como aberração ou ameaça.
O resultado prático disso é que a capacidade de reconhecer a legitimidade da experiência do outro, que é a base de qualquer empatia real, vai sendo corroída. Não de uma vez. Aos poucos. Como ferrugem.
Tem outro mecanismo em jogo que eu acho ainda mais perverso, porque é mais silencioso.
Quando você está sentado na frente de alguém e ele te conta alguma coisa difícil, o corpo inteiro participa daquilo. Você vê a expressão do rosto mudar. Ouve o tom da voz vacilar. Percebe quando ele desvia o olhar ou quando aperta os lábios antes de falar. Tudo isso ativa no seu cérebro algo que os neurocientistas chamam de sistema de neurônios-espelho, células que disparam tanto quando você realiza uma ação quanto quando você observa outra pessoa realizando. É o substrato biológico da empatia. É o que faz você sentir um aperto no peito quando alguém chora na sua frente.
A tela remove quase tudo isso.
Comunicação mediada por dispositivos digitais elimina as microexpressões, o silêncio grávido, a hesitação, o toque. Sobra o texto. E o texto é perigosamente ambíguo. Uma frase curta pode ser lida como frieza ou como objetividade, como ironia ou como afeto, dependendo de quem lê e de que humor está. Pesquisas sobre comunicação mediada por computador mostram que a ausência dessas pistas não verbais aumenta significativamente o risco de má interpretação e reduz a riqueza emocional da interação.
A DR que eu sempre fiz funcionava porque era ao vivo. Porque eu via o outro. Porque o outro me via. Porque o desconforto de estar na mesma sala que alguém com quem você tem um problema não resolvido cria uma pressão que força a conversa para um lugar real. Por mensagem, é muito mais fácil fechar o aplicativo.
E há o cansaço.
Existe um conceito que nasceu para descrever o esgotamento de profissionais de saúde que lidam diariamente com sofrimento, a compassion fatigue, fadiga da compaixão. A ideia é simples: a empatia tem um custo energético, e quando você é exposto a sofrimento de forma contínua e sem pausa, o sistema entra em colapso. Você não para de se importar de repente. Vai parando aos poucos. O coração vai criando casca.
Nas redes, isso acontece em escala industrial. Você abre o celular de manhã e já tem uma tragédia. Abre de tarde e tem outra. À noite, mais uma. Guerras, feminicídios, desastres ambientais, corrupção, injustiça. Tudo junto, tudo misturado, tudo no mesmo feed onde também estão o aniversário do seu primo e o meme do gato. Um levantamento mostrou que cerca de 37% dos americanos relatam diminuição na capacidade de se importar com eventos trágicos por causa dessa sobrecarga.
O problema não é que as pessoas sejam más. O problema é que a empatia não é um recurso infinito, e o ambiente digital está drenando esse recurso com uma eficiência assustadora.
Recentemente no meu podcast, o Cinem(ação), quando falamos sobre o filme O Drama, eu mencionei Hannah Arendt, que escrevia sobre coisas bem mais sombrias do que o Instagram. Ela argumentava que a incapacidade de pensar a partir da perspectiva do outro é um dos elementos mais perigosos da vida social. Não a maldade ativa. A ausência de pensamento. O piloto automático moral.
No ambiente digital, esse piloto automático encontrou o espaço ideal para se reproduzir. A velocidade das interações não deixa espaço para reflexão. A resposta vem antes do pensamento. O julgamento vem antes da pergunta. E a pergunta, aquela que começa com “mas por que essa pessoa pensa assim?”, é exatamente o primeiro passo de qualquer processo empático.
Zygmunt Bauman descreveu a modernidade líquida como um estado em que relações são temporárias e facilmente descartáveis. Quando alguém te irrita online, você bloqueia. Quando uma amizade fica difícil, você vai ficando com menos tempo para responder até que ela simplesmente some. O esforço que uma relação real exige, aquele atrito produtivo de conviver com alguém que é diferente de você, vai sendo terceirizado para um algoritmo que só te mostra quem te faz sentir bem.
Mas é exatamente no atrito que a empatia se desenvolve.
Penso às vezes que a questão não é tecnológica. É de escolha.
A ferramenta existe. O celular no seu bolso tem capacidade técnica para te conectar com qualquer pessoa do planeta em tempo real. O que falta não é banda larga. É vontade. É a disposição de, ao invés de mandar um meme quando um amigo está mal, ligar e ouvir. De, ao invés de comentar uma linha sarcástica num post de alguém com quem você discorda, perguntar de onde vem aquilo. De, ao invés de fechar o aplicativo quando a conversa fica desconfortável, ficar.
Empatia sempre foi uma escolha. A diferença é que agora a opção de não escolhê-la ficou mais fácil, mais rápida e mais socialmente aceitável do que nunca.
Eu continuo fazendo DR. Continuo achando que uma conversa longa e honesta vale mais do que qualquer quantidade de reações de coração numa foto. Continuo acreditando que os meus melhores relacionamentos são os que sobreviveram a pelo menos uma conversa difícil.
Minhas sobrinhas, novas ainda, me acham “maluquinho", porque quando estou com elas, eu pergunto tudo! Quero saber saber da escola, das amizades, de porque gostam de assistir um determinado youtuber e por aí vai. É uma curiosidade genuína a minha, mas é sobretudo, um jeito de entender como os pensamentos delas se constroem e como posso estimula-las a falar.
Mas reconheço que é cada vez mais contracorrente. Que a corrente puxa para o lado da superfície, da velocidade, do like que não compromete e do silêncio que não exige nada de ninguém.
E fico pensando no que estamos perdendo. Não em termos abstratos. Em termos concretos, cotidianos, individuais. Quantas amizades terminaram porque alguém ficou esperando uma mensagem que nunca veio. Quantos mal-entendidos viraram rupturas porque ninguém quis sentar e conversar. Quantas pessoas estão, agora mesmo, se sentindo profundamente incompreendidas num mundo em que nunca foi tão fácil mandar um áudio de dois minutos.
A civilização mais informada da história está, por todas as evidências disponíveis, com uma dificuldade crescente de simplesmente se olhar nos olhos e dizer: eu te ouço.
Isso me parece, sem exagero, uma das maiores tragédias silenciosas do nosso tempo.






